domingo, 27 de janeiro de 2013

OPINIÃO & DEBATE - Ficção Nacional é ruim?


Por L. H. Hoffmann
 
O ano de 2013 nem bem começou e o mercado editorial foi sacudido por uma polêmica que, apesar de antiga, vem travestida de novidade. Graças a dois artigos publicados no caderno “Ilustrada” do jornal “Folha de São Paulo”, a discussão sobre a publicação de romances nacionais vem tomando um vulto exagerado, calcada em informações incompletas e equivocadas, o que pode causar danos ainda maiores no já difícil processo de publicação de livros de ficção “made in Brasil”.
Diante dos artigos publicados no referido periódico faz-se necessário algumas ponderações, uma vez que se deve fazer comparações em condições equivalentes. Fica difícil vencer uma corrida onde seu adversário está equipado com uma Ferrari e você com um carro 1.000;
Para que o leitor entenda o que estou falando, sugiro que primeiro leiam as referidas publicações acessando os seguintes links:



Lidos tais artigos, partamos agora para uma análise dos dados e argumentos apresentados pelos colunistas e seus entrevistados.
No artigo assinado por Marcos Rodrigo a ficção nacional é apresentada como “um investimento ruim”, quando o correto seria “sem investimento”. As justificativas apresentadas, no meu ponto de vista, são equivocadas, dando a impressão que o produto “ficção nacional” é ruim. Isto posto, vamos analisar alguns desses argumentos.
No artigo de Marcos Rodrigo, o colunista informa que: “a categoria de não ficção é dominada por livros nacionais, quase sempre ocupando os primeiros lugares. Já entre os títulos de ficção, encontrar um autor brasileiro é como achar uma agulha em um palheiro.” A afirmação é inquestionavelmente verdadeira, mas tal fenômeno é algo natural, uma vez que o público interno está muito mais interessado nas fofocas e assuntos relacionados ao seu cotidiano do que os de outros países, como menciona Otávio Marques da Costa – Publisher da Cia das Letras – no próprio artigo.
Outro aspecto levantado  na matéria é o fato de que no Brasil não há tradição de uma literatura comercial de qualidade – palavras do mesmo Otávio – e há pouca gente se arriscando a fazer uma ficção mais popular. “Quem poderia fazer isso bem prefere ir para TV, escrever a novela das oito”, diz Sergio Machado, Presidente do Grupo Editorial Record. Acho que o presidente da Record não assiste novelas, senão veria a completa ausência de qualidade que as mesmas tem ultimamente.
O que posso dizer é que existe literatura de ficção nacional de muito boa qualidade como existe ficção importada de péssimo gosto. Talvez o Publisher da Cia das Letras – Otávio Costa – tenha esquecido de levar em consideração que as obras estrangeiras tem um “custo” mais barato e muitas das vezes já vem “testadas” em seus países de origem no que se refere ao item “desempenho nas vendas”
Um exemplo disso é o fenômeno editorial Cinquenta Tons de Cinza, que veio precedido de uma campanha de marketing e boatos da produção de um filme – o qual se tranformou em realidade em função do seu desempenho nas vendas. Ao ler o livro em questão, não notei nada de excepcional que justificasse tal sucesso a não ser o marketing que o transformou num objeto de desejo de um público, na sua maioria feminino. Harold Robbins, Cassandra Rios e Judith Krantz já escreviam algo parecido e com maior qualidade a décadas atrás.
Sobre esse ponto, Machado ainda diz, em seu depoimento, que: “O último – referindo-se a obra “Encantadores de Vidas”, de Eduardo Moreira – recebeu uma verba de marketing “agressiva”, de mais de R$ 200 mil. Um livro de ficção nacional considerado “normal” recebe cerca de R$ 2.000 de marketing.” Outra colocação distorcida, claramente utilizada para isentar as editoras de suas responsabilidades no que se refere ao fracasso de vendas da ficção nacional.
Cabe esclarecer aqui que um livro “normal” de ficção nacional – precisaria saber o que ele entende por “normal”, raramente recebe sequer os tais $ 2.000 se não sairem do próprio bolso do autor. Ele ainda afirma que: “não adianta fazer publicidade de um produto que não vai despertar o interesse do público”, como se ele soubesse o que o público quer. Ah, mas ele se baseou em pesquisas e dados concretos para chegar a tal conclusão, podem afirmar alguns. Sério? Então alguém deve ter interpretado tais dados de forma errada para que o exemplo que foi dado – Encantadores de Vidas tenha sido publicado e se tornado um fracasso de vendas, uma vez que alguém aprovou sua publicação, acreditando ter QUALIDADE e SER DO INTERESSE POPULAR.
Isso nos remete ao artigo escrito por Raquel Cozer, que tem como tema a autopublicação que se multiplica no país. Raquel apresenta alguns cases de sucesso, onde autores como André Vianco e Eduardo Spohr alcançaram destaque realizando eles mesmos a publicação de seus primeiros livros, investindo tempo e principalmente dinheiro naquilo que acreditavam. Aparentemente esses “amadores do mercado editorial” deram uma lição de como realizar um "marketing agressivo" nos “tubarões do mercado”. Ah, mas o surgimento de Best-sellers dentro das autopublicações ainda são exceções, como se pode ler no artigo de Raquel Cozer. Quem vocês acham que, teoricamente, tem mais recursos para investir? Um autor que precisa pegar dinheiro do FGTS ou uma editora de grande porte que tem recursos bem maiores?
Acho que isso é um sinal de alerta para as editoras que vendem o produto livro. Se não tomarem cuidado, muito em breve seguirão pelo mesmo caminho das gravadoras que se tornaram meras vendedoras de CDs, uma vez que os cantores passaram a cuidar de suas próprias carreiras, e com muito mais competência.
Chegou a hora de parar de jogar a culpa nos autores e de cada um que ocupa um lugar na cadeia produtiva do livro assumir sua parcela de culpa e contribuir para que a literatura nacional de ficção se torna tão robusta quanto a estrangeira. Temos sim bons autores de ficção e um público ávido por lê-los, mas que não sabem de sua existência. Entendo que é papel das editoras fazer o link entre os dois, mas enquanto existirem profissionais cujos olhos estão turvos de preconceito e má vontade, isso também vai cair sobre as costas dos autores. É uma pena!



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