A lua nova no céu deixava a noite mais escura do que o normal.
–
Ainda faltam três. Voltarei em breve. – disse um homem vestido de
preto, após tocar a campainha à sua frente. Sua pele era alva e os
cabelos dourados desciam até os ombros. Andou até a névoa, que se
formava há apenas alguns metros de onde estava, e sumiu na noite,
deixando uma mulher na porta da paróquia.
Ela
tinha os olhos esbugalhados pela falta de compreensão. Não sabia o que
estava acontecendo. Não se lembrava de nada. A porta se abriu. O padre
olhou para a mulher parada na porta.
– No que posso ajudar minha filha?
Ela não respondeu. Estava confusa. As mãos manchadas de sangue.
O padre olhou, intrigado, para ela e voltou a fazer a mesma pergunta. Outra vez, não houve resposta.
– Qual o seu nome? – tentou outra abordagem.
Ela olhou para o chão enquanto respondia:
– Eu… não me lembro.
O
padre a olhou, novamente, estudando-a. Ultimamente haviam acontecido
fatos terríveis com alguns clericais, porém, como homem santo, não podia
deixá-la sozinha, então pediu para que entrasse. Aparentemente, estava
perdida ou sem lar. Preparou um banho quente e arrumou uma cama para a
mulher. Tentou descobrir mais sobre ela, mas a memória ainda estava em
branco. No dia seguinte, bem cedo, voltariam a conversar. Se não
conseguisse nada chamaria um médico e, também, a polícia.
Limpa
e confortável, a mulher fechou os olhos e tentou dormir. Sua cabeça
fervilhava com a falta de lembranças. Em pouco tempo, mergulhava fundo
nos sonhos. Em sua mente, viu o misterioso homem que a deixara na
paróquia. Os olhos eram frios, sem vida e transmitiam rancor. O homem
estava nu – a pele quase albina – se arrastando pelo teto. O corpo
deslizava como uma serpente, enquanto sua boca espumava e um estranho
líquido verde escorria pelos lábios. Um demônio, não podia ser outra
coisa, pois aquilo era uma afronta à natureza.
A
criatura voltou-se para ela e seus olhares se encontraram. Num segundo
depois o homem já não estava lá. Ela começou a suar frio. Tremia de
medo. Seus nervos estavam à beira de um colapso. Sentiu uma ardência
entre as pernas. Desejo. Um fogo como há muito não sentia. Prazer. Era
mesmo um sonho? Gemidos sensuais. Risadas satânicas. Pandemônio.
A
mulher abriu os olhos e vislumbrou o volume por debaixo do lençol,
entre suas pernas abertas e sente o líquido quente escorrendo em sua
virilha. Lentamente puxa o lençol. Nada. Estranho.
Uma
risada estridente direto em sua mente faz com que ela acorde e se
levante. Caminha até a porta aberta e olha o corredor escuro.
Um vulto.
É
ele! Sim, a mulher tem certeza disso. Os cabelos dourados e a pele
extremamente branca são inconfundíveis. Deu um passo para trás e
derrubou o abajur que estava sobre o criado-mudo. Voltou, rapidamente,
para a cama molhada pelo seu prazer. Fez silêncio e escutou os passos
que anunciavam a aproximação do padre.
O clérigo apareceu na porta.
O lençol camuflou a mancha.
– Tudo bem com você?
A
cama espatifada não passou despercebida do olhar do missionário, que
pegava o abajur do chão. Ela apenas fez sinal positivo com a cabeça.
– Que bom! Se precisar de alguma coisa basta me chamar!
Ela concordou, novamente, com um movimento de cabeça.
– Boa noite! – disse o padre, fechando a porta.
As sombras do quarto deram muito a que pensar, até que ela pegou no sono.
Uma
conhecida catedral da cidade. Sangue nas mãos da mulher. O que estava
acontecendo? Não se lembrava de nada. A notícia que passava nas
televisões à venda, numa loja de eletrodomésticos em frente à igreja,
prendia a atenção de todos. Mais um padre fora estripado.
“Quem faria uma coisa dessas?”, todos se perguntavam.
Havia
um assassino à solta. Era o oitavo padre morto em menos de um mês. As
pessoas diziam que isso era obra dos adoradores de satã. Talvez
estivessem certas.
O
líquido vermelho escorria das mãos da mulher. Um homem branco vestido
de preto se aproximou. Seus olhos eram frios, sem vida. Os cabelos
dourados balançavam a cada passo. Chegou perto da mulher e falou.
– Não se lembra de nada outra vez? – a voz era forte como o trovão.
Ela olhou assustada para ele. Não possuía nenhuma lembrança. Ele gargalhou. Sua risada era assustadora.
– Pegue e olhe!
O homem esticou a mão para ela. Havia vários jornais com anotações. Ela fez o que ele pedira, mas continuou sem entender.
– Mas o que é isso?
Assassinatos. Os jornais estavam relatando as tragédias que abatera sobre a igreja. Padres foram mortos de forma brutal.
– O quê?
– Você fez um pacto comigo!
– Quem é você?
– Tenho muitos nomes, mas isso não vem ao caso!
– Mas do que você está falando?
– Fama, dinheiro e sucesso! É isso que você pediu para sua vida. Em troca, faz o que eu mandar!
Ela
olhou, novamente, para os jornais. Sangue, Tripas, Corpos mutilados.
“Não é possível, estou ficando louca!”, pensou. Ergueu os olhos para o
homem à frente.
– Não faria uma coisa dessas!
Então a imagem de um sonho voltou. Um homem nu deslizava pelo teto, como se fosse uma cobra. As lembranças começaram a voltar.
– Você fez, e fará outra vez! – disse o demônio – Ainda faltam dois! Voltarei em breve!
FIM
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